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LOLA E SEUS PELOS 2


Ela o viu na academia. Até que era bonitinho, gostoso com aquela barba e músculos fortes. Abaixou os pesos e o olhou, e por um breve segundo seus olhos se encontraram. Lola sentiu um frio na barriga e pensou que era princípio de caganeira. Merda. Era o que ela precisava por para fora.
Ele sorriu, ela sorriu.
Porra, ele é gostoso.
Ela ergueu os braços para fazer uma elevação lateral. Ele desviou os olhos. Ela baixou a cabeça.

Grande porra. Esqueci de raspar.

Lá fora.



Houve um tempo que, da sacada do meu olhar, eu podia observar o correr da minha vida paralelamente a vontade de não fazer nada. Diziam que apenas observar a vida passando garantiria um aprendizado suficiente e equivalente a viver. Por um bom tempo acreditei nessas palavras e me sentei, a distância, mas não tão longe, e observei estasiada as coisas magníficas a minha frente. Da janela, não mais que profundamente vazia, meus olhos conseguiam se abster da vontade de viver, entretanto chegou o dia que, cansada de ficar parada, eu pude sentir outros correrem e sorrirem para mim, dando-me sinal com a mão, chamando-me para fora daquilo que me parecia assim, tão confortável, tão bom, quieto, indolor. Sei que levou algum tempo, tempo talvez longo de mais, mas um dia eu consegui, joguei-me para fora do meu eu, lancei-me da janela dos meu olhos, e voei entre a sacada e o chão. O tombo com certeza me doeu, mas depois de um tempo a dor nem incomodava mais, havia um mundo esplendido a minha frente, eu só precisava sair.
Mirian Kardoso

Sangrar

Coração frio, mais do que o normal. Era uma descoberta e tanto, até porque no fim tudo terminaria do mesmo jeito. Ele caminhou a passos lentos, deslizava sobre as pedras com seus músculos contraídos. De que adiantara tudo aquilo? Nada havia sobrado além do sentimento abestalhado e da sensação inesperada de ansiedade. Levantou a cabeça devagar, ao longe sua cabeça gritava no fronte enquanto no horizonte jazia um último vestígio do sol. Faltava pouco agora. Seu pensamento corria de forma lenta, seu desejo era insuportável. Mas aquilo ali tinha que ser feito. Caminhou mais rápido, agora o ar começara a ficar gélido e silencioso, trepidando por dentro. Seria coisa de sua cabeça, produzida pela culpa que carregava? Não perdeu muito tempo nesse limbo. Continuava caminhando, as palmas das enormes mãos suavam. Por que parecia tão complicado? Chegara. Respiração tensa. Abaixou-se, retirou a tábua e seus olhos se estreitaram enquanto seu coração apertava. Sim. Ali estava. Tremendo ergueu a tampa, retirando da caixa um coração ensanguentado. 

FIDÉLIA

Ela tinha quatro pernas, sua cabeça era quadrada, lisa. No centro, desprendido do comum e insano, existia um orifício largo, repleto de pedaços afiados de lascas do que pareciam ser dentes e de onde emanava um leve fedor de dejetos alimentares, fundidos com a saliva gosmenta e pegajosa.
Além das suas já incompreensíveis quatro pernas, duas abrigavam seus globos oculares cavernosos e piscantes, enquanto das outras restantes uma possuía o orifício anal e a outra seu umbigo, por onde, aparentemente, seria seu órgão reprodutor.
Seu nome era Fidélia.

Inconsciente


Desespero do homem



Marcos esperava sentado na ala principal. Seu coração batia incontrolavelmente. Metade de sua boca escorregava sobre seu peito, enquanto pedacinhos da sua língua caiam sobre seu colo. Até o momento em sua inconsciência ele não sentia qualquer dor, entretanto quando seu pescoço pendeu e viu os pedaços rolando sobre seu colo e parando nas quatro partes ensanguentadas de sua perna, uma

ELA

ela 
Assassinato de um homem

Chovia estrondosamente. Raios brancos cortavam o negro do céu e caiam na terra como latões em queda. O vento chacoalhava a janela e algumas gotas respingavam em cima da escrivaninha por entre as frestas. Lilian apertou os olhos antes de acordar entremeio a dois trovões que louvavam a natureza. Coçou seu olho esquerdo, respirou profundamente até que sua mente encontrasse com o presente. Deu um salto, foi até a janela e terminou de fecha-la em um estrondo misturado com o cair da chuva.