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Cinzas Internas



Mais ou menos no meio da tarde, o céu escureceu, núvens escuras preencheram o azul  e apagaram os restos da luz que ainda existia dentro da casa. Era inacreditável como o mundo podia refletir minha dor, frustrações e humor. Era eu?

LOLA E SEUS PELOS 2


Ela o viu na academia. Até que era bonitinho, gostoso com aquela barba e músculos fortes. Abaixou os pesos e o olhou, e por um breve segundo seus olhos se encontraram. Lola sentiu um frio na barriga e pensou que era princípio de caganeira. Merda. Era o que ela precisava por para fora.
Ele sorriu, ela sorriu.
Porra, ele é gostoso.
Ela ergueu os braços para fazer uma elevação lateral. Ele desviou os olhos. Ela baixou a cabeça.

Grande porra. Esqueci de raspar.

Lá fora.



Houve um tempo que, da sacada do meu olhar, eu podia observar o correr da minha vida paralelamente a vontade de não fazer nada. Diziam que apenas observar a vida passando garantiria um aprendizado suficiente e equivalente a viver. Por um bom tempo acreditei nessas palavras e me sentei, a distância, mas não tão longe, e observei estasiada as coisas magníficas a minha frente. Da janela, não mais que profundamente vazia, meus olhos conseguiam se abster da vontade de viver, entretanto chegou o dia que, cansada de ficar parada, eu pude sentir outros correrem e sorrirem para mim, dando-me sinal com a mão, chamando-me para fora daquilo que me parecia assim, tão confortável, tão bom, quieto, indolor. Sei que levou algum tempo, tempo talvez longo de mais, mas um dia eu consegui, joguei-me para fora do meu eu, lancei-me da janela dos meu olhos, e voei entre a sacada e o chão. O tombo com certeza me doeu, mas depois de um tempo a dor nem incomodava mais, havia um mundo esplendido a minha frente, eu só precisava sair.
Mirian Kardoso

Sangrar

Coração frio, mais do que o normal. Era uma descoberta e tanto, até porque no fim tudo terminaria do mesmo jeito. Ele caminhou a passos lentos, deslizava sobre as pedras com seus músculos contraídos. De que adiantara tudo aquilo? Nada havia sobrado além do sentimento abestalhado e da sensação inesperada de ansiedade. Levantou a cabeça devagar, ao longe sua cabeça gritava no fronte enquanto no horizonte jazia um último vestígio do sol. Faltava pouco agora. Seu pensamento corria de forma lenta, seu desejo era insuportável. Mas aquilo ali tinha que ser feito. Caminhou mais rápido, agora o ar começara a ficar gélido e silencioso, trepidando por dentro. Seria coisa de sua cabeça, produzida pela culpa que carregava? Não perdeu muito tempo nesse limbo. Continuava caminhando, as palmas das enormes mãos suavam. Por que parecia tão complicado? Chegara. Respiração tensa. Abaixou-se, retirou a tábua e seus olhos se estreitaram enquanto seu coração apertava. Sim. Ali estava. Tremendo ergueu a tampa, retirando da caixa um coração ensanguentado. 

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DA LOLA?


(Refrão): Você já ouviu falar da Lola? Perguntou um rapaz de vinte para outro de 24. Não, quem é? Ela é aquela mulher de vinte e cinco, doutora em artes cênicas, professora da Universidade Tal. Ah, sei. Ela é gostosa. Peitões, hein? Pois é. É.

LOLA E O SAPATO DE SALTO ALTO


Desgraçado, tudo culpa daquela desgraça de pessoa. Filho duma quenga. Quengueiro, eu disse pra vir me buscar, seu anta. Onde você está, seu monte de merda?