O João


Sentado no banco da praça, vestindo um shorts solto, camisa e chinelo, estava João. João era um homem de 34 anos, altura mediana, peso mediano, aparência mediana, olhar mediano e até um sorriso meia boca.
João tinha uma vida mediana. Fez graduação. Em Artes. Não quis qualquer tipo de pós e se tornou um professor mediano, que dava aula para uma escola mediana de um bairro classe média em uma cidade nada mediana.
João chegou aos seus 34 anos sem saber ao certo o que estava fazendo da vida. Até agora só tinha vivido. Só. Nada mais. Nem mesmo nada menos. Só. Não era casado, não tinha filhos ou um relacionamento de longo prazo, apenas casos esporádicos. Afinal nem mesmo alguém tão mediano seria tão de ferro que dispensaria saciar seus desejos. Fora isso ia a academia de forma mediana, três vezes por semana ao boteco com alguns amigos conversar besteiras medianas e dar o riso mediano tão ensurdecedoramente dele. Outras tardes sentava-se na praça, principalmente em dias de muito calor, que ficava na frente do prédio onde morava. Ah, sim. Ele morava sozinho. Em um apartamento mediano que dava para uma vista mediana da praça. Visitava a família uma vez por mês, dia quando dava um meio abraço na mãe, perguntava as novidades para o pai e não fazia ou conversava sobre nada mais profundo que o purê de batata do natal passado.
João vivia assim, nessa vida mediana, até o dia em que o encontramos sentado no branco da praça vestindo um shorts solto, camisa e chinelo, com seus 34 anos, altura mediana, peso mediano, aparência mediana, olhar mediano e dando o sorriso meia boca. João não sabia, mas estava prestes a dar uma guinada na montanha russa dele.
Nesse dia, João decidiu quebrar a rotina e comprar um sorvete. E foi no momento exato de se levantar que ele a viu. Provavelmente João não pensou em nada, só a viu e ponto final. Mas foi a trança do cabelo dela que veio em sua mente enquanto estava tomando banho mais tarde. Era uma trança mediana, estilo as de três pontas, mas foram elas que o fez voltar no outro dia, sentar no banco e esperar que ela passasse com sua trança mediana de três pontas e seu vestido verde.
João nem mesmo chegou a perceber que comprava o mesmo sorvete todo dia a partir daquele dia. A vida, em fim, dera a oportunidade para que João saísse da tão mediana vivencia. E por duas semanas ele a observou, no décimo quinto dia ela virou-se para ele e deu um pequeno sorriso encorajador. João congelou.
João passou a ir trabalhar pensando naquele sorriso. Tomava banho pensando no vestido verde e ia a academia respirando a trança mediana de três pontas. Mas foi só. Dia após dia.
Nas primeiras semanas depois das duas primeiras ela dava um sorriso pra ele, mas depois parou. Só passava mesmo. Ele voltou a ser invisível.
João estava tão trancado na vida mediana que nem percebeu o tempo passando. Semana após semana, mês após mês, ano após ano e ele continuava fazendo as mesmas coisas de sempre. Sem coragem de dar o passo seguinte para sair daquela medianidade.

Já estava com seus cabelos brancos quando ela parou de passar ali. E nem mesmo o sorriso mediano João dava mais. Era sorriso nenhum. Só ele. Só o tempo. Nem conseguiu perguntar aos vizinhos o que acontecera a ela. Ele apenas continuou voltando todas as tardes a praça, sem o sorriso mediano, mas com um olhar de mediana tristeza, até o dia que o véu da noite caiu sobre ele, finalmente tirando-o da vida tão mediana para outra que poderia ser uma chance da montanha russa finalmente descer.

                                                                             MirianKardoso

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2 comentários:

  1. você é tudo...menos mediana...eita saudades...muito, muito legal seu texto...

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    1. Fico feliz que tenha gostado! Saudade enormes de vc e da galera da facul :/

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